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A amizade deve estar “acima de tudo”?
Espiritualidade

A amizade deve estar “acima de tudo”?

A amizade deve estar “acima de tudo”?

Quem seria tão “arrogante”, “intolerante” ou “farisaico” a ponto de exaltar a religião ou a política à custa de suas amizades? As relações físicas, de carne e osso, não contam mais, afinal, do que princípios ideológicos “frios”?

James H. TonerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Abril de 2019Tempo de leitura: 9 minutos
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I. Eu faço parte de um pequeno círculo de conhecidos do passado — todos ex-alunos da mesma universidade, em 1968 — que compartilha histórias, piadas, citações, recomendações de livro e vídeos. Recentemente, deparamo-nos com a seguinte declaração, comumente atribuída a Thomas Jefferson: “Eu nunca considerei uma divergência de opinião em política, em religião ou em filosofia como razão para me afastar de um amigo.”

Nem é preciso dizer que a citação foi recebida com unanimidade. Afinal de contas, por que qualquer um de nós, velhos conhecidos, amigos e companheiros que somos, descartaríamos nossos cinquenta anos de parceria devido a uma possível diferença de opinião em assuntos tão “triviais” como política, religião ou filosofia?

Digo que “a citação foi recebida com unanimidade”, exceto por mim (ainda que eu tenha me contido). Às vezes, tudo o que alguém sabe ou tudo aquilo em que acredita é colocado em xeque através de uma simples afirmação. Como professor, diácono, soldado (e também como esposo e pai de família), eu passei praticamente toda a minha vida adulta argumentando contra o ponto de vista expresso nessa declaração atribuída a Thomas Jefferson. Ironicamente, eu aprendi essa lição “antijeffersoniana” na mesma faculdade de que participaram os membros desse nosso “grupo virtual”.

Mas, afinal, quem seria tão arrogante, tão intolerante ou tão farisaico a ponto de exaltar a religião ou a política à custa de suas amizades? As relações físicas, de carne e osso, não contam mais numa escala de valores do que princípios ideológicos “frios”? A lealdade aos amigos não é a maior das virtudes? Não deveríamos dizer, com o romancista Edward Morgan Forster: “Se eu tivesse de escolher entre trair a minha pátria e trair um amigo, eu esperaria ter a coragem de trair o meu país”?

“Proibido nadar”, de Norman Rockwell.

II. Não, não e não.

Em grande parte da boa literatura, a amizade é exaltada com justiça e sabedoria. É possível ler sobre o assunto na Ética Nicomaqueia de Aristóteles e na Sirácida bíblica, especialmente em seu capítulo sexto, sem falar de outras obras de duradoura significância. Com isso somos levados a concluir, prima facie, que Thomas Jefferson deve estar certo: se nos fosse dado escolher entre ser fiel a um princípio abstrato ou ser fiel aos amigos, nós deveríamos escolher este último. E esse é, ao que parece, o consenso de nossos contemporâneos.

Mas a amizade ou é meritória ou é “meretrícia”. Se meretrícia, é falsa, fraudulenta e fugaz; se meritória, é verdadeira, fidedigna e duradoura. Se meretrícia, a amizade é construída sobre a areia da falta de caráter, da frivolidade ou da alegria vã; se meritória, porém, é construída sobre a rocha do que é supremo, permanente e piedoso. É o testemunho que nos dá o Salmo 101: “Detesto o crime de quem vos renega; que não me atraia de modo nenhum! Bem longe de mim, corações depravados, nem nome eu conheço de quem é malvado” (v. 3-4), e é o sentido deste versículo de Eclesiástico 6: “Separa-te daqueles que são teus inimigos, e fica de sobreaviso diante de teus amigos” (v. 13).

Toda as lealdades, amizades e camaradagens — valiosas como são — só se mantêm até certo ponto. Elas são circunstanciais, condicionais e contextuais; são contingentes e devem estar em conformidade com o que é bom, verdadeiro e belo, devem ser consistentes tanto com a razão natural quanto com a revelação (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1954). Quando o que parece ser uma amizade é, na verdade, tentação ao pecado e ao mal, a amizade já está dissolvida.

Suponha que um “amigo” viesse lhe pedir para ajudá-lo a fazer algo manifestamente criminoso ou pecaminoso. Sua resposta deveria ser, primeiro, recusar-se e, segundo, admoestar o pecador, tentando convencê-lo do erro e ganhá-lo de volta para fazer o que é certo.

Tudo isso exige, no entanto, algo que está em falta nos dias de hoje: fidelidade a normas transcendentes. Essa ideia foi expressa de maneira clara, concisa e cogente pelo Papa São João XXIII em sua encíclica Ad Petri Cathedram, de 1959:

A causa e a raiz de todos os males que, por assim dizer, envenenam os indivíduos, os povos e as nações, e tantas vezes perturbam o espírito de muitos, está na ignorância da verdade. E não só na ignorância, mas às vezes até no desprezo e no temerário afastamento dela. Daqui erros de toda a espécie, que penetram como peste nas profundezas da alma e se infiltram nas estruturas sociais, desorganizando tudo, com grave ruína dos indivíduos e da sociedade humana (n. 4).

III. A citação de Thomas Jefferson transcrita no começo deste artigo deve ser lida, portanto, justamente ao contrário. Nós deveríamos considerar, sim, uma divergência crucial de opinião em política, em religião ou em filosofia, como forte razão para se afastar de um amigo. Mas o que seria, nesse sentido, uma divergência “crucial”?

Na magnífica peça A Man for All Seasons, de Robert Bolt [n.d.t.: da qual há um filme homônimo, em português chamado “O homem que não vendeu a sua alma”], São Thomas More é instado a trair a verdade para se aliar a outros (que já haviam traído a verdade) “por amizade”. O santo então pergunta, quando a consequência da ação de uma pessoa é ela ser mandada ao inferno, se seus amigos a deveriam acompanhar também àquele lugar, só “por amizade”.

Eis o ponto crucial. Quando uma suposta amizade aprova o mal ou nos conduz ao caminho do pecado (algo a que se costuma chamar “cooperação formal ou material com o mal”), nós devemos ter a prudência e a fortaleza de rejeitar esta que é uma “amizade” falsa, fraudulenta e fugaz. Aqueles que nos levam à perdição não são nossos melhores amigos, mas sim nossos piores inimigos, e nós devemos sim nos afastar deles (tendo-os aconselhado primeiro quanto à razão da rejeição).

O Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos tem um ditado segundo o qual “um soldado em dever de guarda não tem amigos”. Tampouco a nós toca ter amigos se o que estamos guardando (cf. 2Tm 1, 14) se encontra ameaçado pelas palavras ou ações daqueles que nós pensávamos ser amigos, aliados, colegas ou companheiros (incluindo nessa lista, a propósito, os homens de colarinho).

“Nós devemos envidar todos os nossos esforços”, diz Aristóteles, “para evitar a iniquidade e ser bons”. É dessa forma que alguém pode se tornar o verdadeiro amigo de outra pessoa. Sem o nosso próprio esforço, supremo e contínuo, pela virtude (cf. 2Pd 1, 3-11), não há fundamento para a amizade. Quando virmos que os outros estão se tornando ou se tornaram corruptos, nossa responsabilidade é nos apartarmos deles, e não nos juntarmos a eles. Provavelmente citando o poeta grego Menandro, São Paulo nos adverte: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33; 5, 11; 6, 9; Pr 13, 20; 2Cor 6, 14).

Há uma forma de entender, por fim, as “amizades” corruptas e nossa obrigação de nos afastarmos (ou mesmo fugirmos) delas. Os verdadeiros amigos, as amizades autênticas podem facilmente se dissolver nos “ácidos morais” de nossa época. Esses “ácidos” vêm do mundo (e de sua insistência em que o aqui e o agora é tudo o que existe), da carne (e de sua insistência em que o prazer físico é o ponto principal de todos os “relacionamentos”) e do diabo (para cujos ardis nós hoje nos encontramos pouquíssimo alertas), os três inimigos da alma, que têm moldado nossos costumes sociais e encontrado sua expressão na música e em outras formas de cultura popular.

IV. Falsas amizades estão sempre fundadas em um destes três males: a crença (irônica) de que Deus não existe, de que a virtude consiste na exaltação soberba de si próprio, e de que podemos imaginar um mundo (pelagiano) no qual somos nós mesmos que fazemos o certo e o errado. (Note-se que Adão e Eva, ao traírem a amizade de Deus, necessariamente prejudicaram o próprio relacionamento entre eles: cf. Gn 3, 5; 6, 5.)

A verdadeira amizade, porém, está sempre fundada, de modo consciente ou não, na piedosa devoção a Deus, no humilde reconhecimento da própria condição de pecador e na nossa necessidade da redenção divina, bem como no entendimento refinado de que existem, de fato, razões profundas para se viver e morrer. Encontrar homens e mulheres que estejam moral e mentalmente vinculados a essas verdades é como descobrir “um tesouro. Nada é comparável a um amigo fiel, o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua fé” (Eclo 6, 14-15).

Um sacerdote católico se perguntou certa vez, refletindo, se os ateus poderiam ser bons cidadãos e chegou à conclusão negativa; eu me pergunto, do mesmo modo, se os que não crêem em Deus podem ser bons amigos, e não posso chegar senão à mesma conclusão. Lealdade autêntica e na medida certa a um amigo só pode ser fruto da minha obediência a Deus (cf. Catecismo, n. 144; Rm 1, 5; 16, 26), sem o qual é inevitável que se siga uma abjeta confusão moral.

Se existe um “conserto” para amizades perversas ou pervertidas? É claro que sim. O conserto está sempre à nossa disposição, se tivermos a inteligência agraciada para ver e ouvir, e então nos conformarmos (cf. Rm 12, 2) à vontade de Deus. Mas o discernimento moral das pessoas parece ter sido sacrificado à “divindade” atual: o subjetivismo, que diz a nós que podemos fazer o que quisermos escolher e apartar-nos arrogantemente do Pão da Vida (cf. Jo 6, 35.66).

Nosso Senhor chama-nos seus amigos (cf. Jo 15, 15), mas essa é uma amizade que podemos abandonar a qualquer momento (e, ai de nós!, mui frequentemente nós o fazemos). Quando, então, pelo pecado, nós traímos essa primeira amizade, perde-se o fundamento para todas as outras amizades.

A primeira obrigação de quem deseja ser um bom amigo deve ser, portanto, a fidelidade à Verdade; e a segunda obrigação deriva naturalmente da primeira: tendo nós mesmos reconhecido o que é bom, verdadeiro e belo, devemos generosamente compartilhar essa visão com os outros e resolutamente chamar à conversão nossos amigos que, vivendo no pecado, erram longe do caminho de Deus (cf. Tg 5, 19; Sl 50, 13).

A amizade genuína, como toda comunidade genuína, pode acolher várias pessoas. Ela deve sempre basear-se, no entanto, não sobre uma diversidade incoerente de julgamentos morais (cf. 1Cor 5), mas antes na devota união de certezas quanto ao que é amável de modo absoluto e infinito (Venite adoremus Dominum, “Vinde, adoremos o Senhor”).

Se a frase com que começamos este texto é de fato de Thomas Jefferson, portanto, ele está errado: a verdadeira amizade exige que nos afastemos dos amigos aparentes, que conspurcam ou traem o que é puro, nobre e eterno.

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Temperamento não é muleta!
Cursos

Temperamento não é muleta!

Temperamento não é muleta!

Não é porque você nasceu com esta ou aquela tendência que precisa ceder à sua natureza e levar a vida de qualquer modo. Temperamento não é muleta, nem licença para ser um mau caráter!

Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Setembro de 2019Tempo de leitura: 1 minutos
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Nós, seres humanos, estamos sempre arrumando uma desculpa, um “jeitinho” para justificar nossos defeitos e permanecer na cômoda mesmice de nossos maus hábitos…

Pois bem, se há algo em que nosso novo curso sobre “Os Quatro Temperamentos” quer ajudar você, é justamente a mudar isso. Assim como o Apóstolo disse: “Não vos conformeis com este mundo” (Rm 12, 2), este curso é para dizer a você: Não se conforme com seu temperamento! Não se conforme às más inclinações com que você nasceu! Lute — com a graça de Deus, é claro, mas lute — para transformar a própria têmpera!

Dizendo de modo mais claro e concreto: 

  • não é porque você nasceu mais propenso à cólera que pode ser mal educado e sair por aí dando coice nos outros; 
  • não é porque nasceu mais dado à melancolia que precisa ficar “chorando as pitangas” todo dia; 
  • não é porque nasceu mais inclinado à preguiça que não precisa “pegar no batente”; 
  • não é porque tende à inconstância que está fadado a sempre começar as coisas e nunca terminá-las… 

Porque temperamento não é muleta, nem licença para ser um mau caráter, e é essa a mensagem do novo teaser que estamos enviando a você, com mais trechos inéditos de nossas aulas. Assista:

Se você gostou e quer saber melhor como esse assunto é tratado dentro do sadio equilíbrio da espiritualidade cristã, inscreva-se agora mesmo em nossa lista exclusiva para este curso e receba todas as atualizações a respeito! “Porque é a partir desse conhecimento, do que é a minha tendência biológica, que eu vou construir o meu caráter”.

E anote em sua agenda: nosso lançamento será no dia 15 de outubro, memória de Santa Teresa de Jesus.

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Marido e mulher, vocês não pertencem a si mesmos!
Família

Marido e mulher,
vocês não pertencem a si mesmos!

Marido e mulher, vocês não pertencem a si mesmos!

Embora o sacramento do Matrimônio não imprima caráter em sentido estrito, o casal muda verdadeiramente: o alicerce deixa de ser o próprio eu e passar a ser o outro, deixa de ser o isolamento para ser a comunhão.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Setembro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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A linguagem tradicional de “direitos” ou “débitos” no Matrimônio foi muito criticada  antes e durante a realização do Concílio Vaticano II, e quase desapareceu do vocabulário católico. No entanto, é necessário analisá-la novamente. Porque é importante reconhecer, especialmente numa época de confusão a respeito da indissolubilidade matrimonial, que no momento em que nasce o vínculo conjugal algo de cada um dos cônjuges pertence, por direito, ao outro, e não apenas a si mesmo.

Vejamos os votos contraídos no Matrimônio: “Eu, N., recebo-te por minha esposa (meu esposo) a ti, N., e prometo ser-te fiel...”. A troca de consentimentos não é um contrato limitado e revogável: ao contrário, ele é livre, irrevogável e desinteressado, pois um se entrega ao cuidado do outro. Eu deixo de ser “dono do meu nariz”, pois agora pertenço à outra pessoa. Em certo sentido, torno-me propriedade do meu cônjuge. Os esposos podem reivindicar coisas um do outro, porque cada um deles tem um direito verdadeiro e definitivo sobre o outro. Esse é precisamente o significado do voto, diferentemente de acordos, contratos, pactos, parcerias ou “casos”.

Vale a pena fazer uma comparação com os votos religiosos. A mulher que entra para a vida religiosa, como costumamos dizer, faz um voto irrevogável e incondicional de se casar espiritualmente com Nosso Senhor Jesus Cristo. Por sua vez, o homem que entra para a vida religiosa promete pôr-se plenamente à disposição e a serviço dEle. Não se trata de um mero passatempo, mas da consagração de toda a vida a outra pessoa.

Por isso, tanto o Matrimônio como a vida religiosa exigem uma preparação séria, um propósito lúcido, esforço e oração constantes para que haja perseverança e um desejo pleno de aceitar o fardo do outro “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, nas épocas de esplendor e nas noites escuras. 

Você não pertence a si mesmo” — é esse o clamor que sai da boca do Apóstolo (1Cor 6, 19). Marido e mulher, vocês não pertencem a si mesmos, pertencem um ao outro e, portanto, devem tudo um ao outro. Esse débito se estende de forma natural, espontânea e apropriada aos filhos, por quem os pais são responsáveis e de quem recebem as bênçãos da alegria, do apoio e do sofrimento, ou seja, trata-se de uma verdadeira participação no mistério pascal de Cristo. De modos distintos, os membros da família pertencem uns aos outros. Nenhum deles pertence a si mesmo. 

Você não pertence a si mesmo. Contraímos uma dívida eterna com Deus pelo simples fato de termos sido criados do nada por sua vontade benéfica e sábia. Devemos a Ele nosso próprio ser, porque Ele nos fez para ser, Ele nos dá o “ato de ser”, a fonte de nossa personalidade, a energia dinâmica que nos transforma em seres reais, e não meramente possíveis. Como se isso não bastasse, Ele nos salva: “Fostes comprados por um alto preço” (1Cor 6, 20).   

O Matrimônio é análogo à Criação e Redenção. Deus remodela os esposos como marido e mulher através dos votos feitos livremente por eles e, num mistério que envolve o uno e o múltiplo, o passado e a eternidade, o exercício da vontade individual de cada um dá origem à união amorosa de duas vidas. Por meio dos votos o relacionamento (ou seja, sua mútua dependência) vai da possibilidade à realidade: ele se torna algo real, e não apenas uma ideia ou desejo. 

Embora o sacramento do Matrimônio não imprima caráter em sentido estrito, o casal muda verdadeiramente: o alicerce deixa de ser o próprio eu e passar a ser o outro, deixa de ser o isolamento para ser a comunhão. Os cônjuges estabelecem uma nova relação, enraizada na razão e na vontade, e por meio da qual são novamente criados no Reino de Deus e neste mundo. Essa relação é tão íntima que somente a morte (literalmente, o desaparecimento de um dos esposos) lhe pode estabelecer um limite temporal. Na medida, porém, em que a alma santificada de uma pessoa leva consigo tudo o que ela fez em sua vocação para a glória de Deus, o vínculo entre os esposos pode continuar no céu, não da forma como existe na terra (cf. Mc 12, 25), mas num estado transfigurado de perfeita e elevada união, que foi imperfeitamente alcançado nesta vida. 

O que foi dito acima ajuda a explicar por que a união física entre homem e mulher só faz sentido no contexto matrimonial. Ela é tradicionalmente chamada “ato conjugal” (ou nupcial) por ser o ato por que se paga, de modo simbólico e real, a dívida espiritual dos votos. É imagem passageira de um compromisso duradouro, evidência momentânea da intenção de amar e servir por toda a vida. 

Esse ato perde o sentido quando não há comunhão de almas alicerçada num voto. Fora do casamento, o ato se autodestrói, pois ignora sua elevada finalidade e se torna ou um ritual niilista, do qual se cansam até as pessoas mais inteligentes e artísticas, ou um ato animal sem qualquer valor pessoal. Isso acontece porque a união física digna de duas pessoas humanas só pode ocorrer se for realizada primeiro no campo espiritual por meio de votos solenes, pelos quais homem e mulher se concedem mutuamente o direito exclusivo que um pode exercer sobre o outro. É assim que se entregam um ao outro. Qualquer outra coisa além disso é autocontraditória, medíocre mesmo, algo a que Nietzsche chamou “meio a meio”.

Nietzsche também dizia que o coração do homem e da mulher tem um profundo desejo de eternidade. Nossos corações desejam o Todo, e não descansarão até obtê-lo. O Matrimônio é um todo espiritual, um bem comum feito de partes intrínsecas: marido e mulher. Se o todo for removido, as partes se dissolvem, assim como a mão perde sua essência quando separada do corpo, pois em tal circunstância ela só pode ser chamada “mão” de modo equívoco. Se o todo for danificado ou eliminado, as partes perecerão, assim como o homem morre quando cortado ao meio ou o corpo se corrompe quando dele se separa a alma. 

O voto nupcial representa a união de dois espíritos, cuja graça, paz, alegria e caridade podem ser reforçadas pela união física. A beleza do ato interno (duas pessoas unidas por um voto) redunda na beleza do externo (duas pessoas numa só carne); a veracidade do ato interno contém e aprofunda a veracidade do externo; a bondade do ato interno purifica e ilumina o externo. Essa é outra forma verdadeira de dizer: “O que Deus uniu o homem não separe”.

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É possível o retorno à inocência?
Sociedade

É possível o retorno à inocência?

É possível o retorno à inocência?

Com a contínua banalização do vício na modernidade, a ideia de preservar ou recuperar a inocência pode parecer um tanto irrelevante. Mas seria impossível fazê-lo? Ou, ao contrário, não é esse o único caminho para Deus?

Auguste MeyratTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)20 de Setembro de 2019Tempo de leitura: 9 minutos
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Com a contínua banalização do vício na modernidade, a ideia de preservar ou recuperar a inocência parece um tanto irrelevante. Hoje, apenas alguns pais (geralmente mórmons ou católicos tradicionais) levam a sério a inocência de sua família e fazem o possível para proteger os filhos da corrupção reinante em todas as formas de mídia e ambientes. Eles educam em casa, restringem ou proíbem o tempo de televisão e  procuram limitar as companhias e amizades de seus filhos.

Na maioria dos casos, seus vizinhos mais progressistas os ridicularizam como loucos e fariseus modernos, principalmente quando veem seus filhos alimentando a fé e vivendo prudentemente, enquanto os seus próprios caem em todos os pântanos morais imagináveis.

Diante de tal êxito, pode-se perguntar por que mais pessoas não seguem essas famílias saudáveis em vez de zombar delas. Algumas o fazem, e isso explica por que as comunidades religiosas ortodoxas mais tradicionais estão crescendo rapidamente, enquanto as liberais continuam a decair de forma vertiginosa. Outros não o fazem porque não compreenderam o que realmente significa inocência. Com demasiada frequência, ela é entendida em termo negativos: não ser exposto a más influências, não observar ou conhecer o mal, não ter maus pensamentos ou cometer ações más etc. Se as pessoas veem a inocência como um conjunto de “não-experiências”, os que a ela se opõem podem tratá-la como algo que denota ignorância, ingenuidade e até insensibilidade.

A consequência dessa redefinição é clara, especialmente nas escolas, no entretenimento e na vida familiar. Na escola, as crianças são sistematicamente escandalizadas em relação à sua fé, aos seus relacionamentos e à sua própria identidade. Elas aprendem cedo a equiparar religião com superstição, amor com utilidade e o “eu” com características acidentais. Os alunos que praticam sua fé, evitam o sexo e renunciam ao status de “vítima” são considerados estranhos e atraem o desprezo universal. Por outro lado, os estudantes “de gênero fluido”, com muitos parceiros e sem religião, são cada vez mais celebrados e admirados.

No entretenimento, as crianças veem o bem e o mal relativizados, com o vilão muitas vezes interpretando o herói, e virtudes como a bravura e a honestidade sendo dissolvidas em desprezo, incompetência e superficialidade. Pode até ser que os telespectadores mais jovens aprendam a ser gentis com as pessoas, mas o que eles costumam aprender com mais frequência é a tirar sarro dos outros, esquecer suas boas maneiras e agir como palhaços.

Além de absorver a imoralidade desse entretenimento, o ato de consumir passivamente imagens e sons, na tela, atrai as crianças para o vício. Não há melhor maneira de tirar a inocência de uma geração inteira do que transformá-los em viciados.

É claro que a escola e o entretenimento não teriam tanto efeito sobre a inocência dos jovens se os adultos estivessem em guarda. Mas, infelizmente, a maioria dos adultos abandonou o posto, deixando suas casas um caos e as crianças se virando por si mesmas. Incentivados por uma propaganda onipresente, eles têm cada vez menos escrúpulos em submeter seus filhos à corrupção. Assim, as crianças passam os primeiros anos de formação em lares onde abuso, palavrões e mentiras são algo comum.

Essa extinção da inocência continua, perigosa, até a idade adulta. Colocados em uma ladeira escorregadia e achando que nada mais têm a perder, a maioria dos adultos continua perdendo ainda mais a inocência. Seu lazer, educação e vida doméstica se tornam ainda mais escandalosos e destrutivos, a ponto de males extremos como o aborto, a eutanásia e a perseguição religiosa começarem a ser tratados como opções desejáveis para revolucionar a cultura.

Essa situação deixa duas opções para o indivíduo que ainda acredita na inocência: lutar ou fugir. A curto prazo, aqueles que escolherem a última opção podem ser mais eficazes em lidar com esse movimento espiral de decadência moral, mas isso não acontecerá a longo prazo. A tão criticada “Opção Beneditina” poderia funcionar em uma sociedade feudal descentralizada, que é o que a Europa se tornou após a queda do Império Romano. Mas não pode funcionar em países modernos, onde um governo autoritário tem os meios e o apoio para simplesmente proibir ideias e práticas contrárias à sua ideologia. Por exemplo: as leis do Canadá que anulam a autoridade dos pais para pressionar a doutrinação LGBT, ou as leis draconianas da Alemanha contra o ensino em casa, indicam qual será o destino final das famílias que tentarem se afastar da corrupta cultura secular da nossa época.

Em vez disso, a melhor opção para preservar a inocência é combater a corrupção predominante. O primeiro passo requer recuperar a definição adequada de inocência. Muito mais do que uma mera falta de experiências negativas, a inocência é uma confiança em realidades superiores — como a Verdade, a Bondade e a Beleza. É inocente a pessoa que acredita na verdade da revelação de Deus, na bondade dos amigos e familiares, na beleza da Criação e da imaginação. Essa pessoa tem uma visão transcendente do mundo e é capaz de enxergar para além de si mesma. Ela não reduz toda a experiência a fenômenos materiais aleatórios, mas encontra significado em tudo e em todos. 

Por terem menos experiências que as levariam a duvidar das realidades mais elevadas, as crianças são naturalmente mais inocentes. No Sermão da Montanha, Cristo, a própria encarnação da inocência, claramente quer preservar essa qualidade nos jovens e recuperá-la nos velhos: “Em verdade vos digo: se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3). Jesus não ordena que os adultos abandonem suas responsabilidades ou seus conhecimentos, como ele deixa claro três versículos depois (cf. Mt 18, 6), mas exorta a manterem sua inocência e confiança em Deus.

Felizmente, apenas conhecer ou experimentar algo feio, mau ou falso não leva necessariamente as pessoas a perderem a inocência, embora isso certo aconteça se não tivermos cuidado. Dostoiévski ilustra essa situação com os protagonistas de Crime e Castigo. Na esperança de provar a teoria de que indivíduos verdadeiramente iluminados podem dispensar a moralidade, o protagonista Raskólnikov comete um duplo homicídio, perdendo a inocência no sentido não apenas jurídico, mas também espiritual. A miséria por ele experimentada não provém da culpa por tirar a vida de um inocente, mas da decisão de desistir da Verdade, da Bondade e da Beleza pela falsa sensação de poder resultante do pecado.

Em contraste direto, a personagem Sônia preservou a inocência. Ela brilha como um anjo, apesar de experimentar males muito piores como prostituta, apoiando o pai alcoólatra, com uma mãe histérica e irmãos pequenos e indefesos. Nas conversas entre os dois, Sônia é inocente, afirmando sua confiança em Deus e em seu amor, enquanto Raskólnikov se sente qualificado para lhe dizer o quão errada e ingênua ela é, ainda que ele mesmo nunca se dê conta da própria estupidez, ao cometer um crime pela simples razão de justificar uma hipotética moral adolescente.

Em vez de evitar Raskólnikov para manter sua pureza, Sônia pacientemente o confronta sobre seu crime e o desafia ao arrependimento. Nesse sentido, ela reflete os santos que brandiram sua inocência diante da corrupção. Eles entenderam que isso era mais persuasivo do que qualquer argumento. São Paulo conquistou mais convertidos na Grécia com sua inocência do que os maiores filósofos fizeram com seus diálogos e tratados. O próprio Santo Agostinho se converteu não por sua educação retórico-filosófica, mas por causa dos exemplos morais de sua mãe Santa Mônica e de seu mentor, Santo Ambrósio. São Bernardo de Claraval superou o lógico e célebre Pedro Abelardo (numa época em que havia pessoas assim) mais pelo poder de suas convicções do que por seu brilhantismo. São João Paulo II, um gênio por mérito próprio, dedicou sua vida a Deus depois de testemunhar a fé inabalável do pai, a quem considerou como seu “primeiro seminário”. Nada disso exclui a necessidade da razão; indica, porém, que esta é muito mais convincente quando associada à inocência.

Além de provar o poder da inocência, esses exemplos do passado demonstram que ela constitui o remédio concreto para um presente já fadigado. Obviamente, os que preservaram sua inocência devem torná-la um modelo para os outros. Eles podem esperar retaliações, mas pelo menos as pessoas notarão e talvez até venham a tomar consciência mais profunda dos efeitos encantadores da inocência.

O que é menos óbvio nesses exemplos, mas ainda assim imprescindível, é a necessidade subsequente do afastamento do mundo. A inocência impulsiona os homens para o céu; a corrupção os afasta. A pessoa deixa de confiar na Verdade, na Bondade e na Beleza quando passa tempo ouvindo mentiras, sucumbindo ao vício e se rendendo à autossuficiência. Portanto, o homem deve se afastar dessas influências.

Tal mudança acontece para Raskólnikov quando ele passa anos em uma prisão siberiana, antes de finalmente se arrepender. São Paulo escolheu viver no anonimato por três anos após sua conversão, antes de iniciar seu apostolado em Antioquia. Após sua conversão, Santo Agostinho se afastou permanentemente do mundo e de todos os seus prazeres e, praticamente, formou sua própria Ordem religiosa. São Bernardo ingressou na comunidade monástica mais rígida da França de sua época, e São João Paulo II perdeu o sono para passar mais horas em oração. Para todos esses homens, foi o afastamento do mundo que permitiu à inocência criar raízes e florescer. Eles pareciam haver entendido que, sem essa separação, a inocência continuaria sendo um ideal distante que induziria mais a remorsos do que à mudança de vida.

Na era da informação, esse afastamento se tornou cada vez mais difícil, à medida que novos dispositivos preenchem todos os espaços da vida; e inventores e psicólogos desonestos incorporam “tecnologia persuasiva” para destruir a possibilidade de autocontrole das pessoas. Por esse motivo, é necessário ter um propósito de mudar os próprios hábitos e reordenar as prioridades da vida. O tempo gasto anteriormente na televisão e nas mídias sociais pode ser preenchido com oração, trabalho, estudo e momentos de convivência. Se tal mudança puder ser sustentada sem recaídas, surgirão momentos de inocência em que a pessoa perceberá, e se revoltará, com o profano; e exaltará o belo, cheia de gratidão pelas muitas bênçãos presentes no mundo ao seu redor.

Para muitas pessoas que perderam sua inocência, a percepção de que ela pode ser resgatada é uma ocasião de grande alívio, e até de emancipação. Elas não precisam mais se desesperar por terem se afastado da inocência, nem continuar fingindo que estavam melhor por tê-la perdido. Em vez disso, elas podem ser encorajadas pela possibilidade de se tornarem inocentes novamente, protegendo a inocência de outrem e confrontando as forças que trazem à nossa sociedade essa tão sufocante corrupção. Por fim, um retorno à inocência através do afastamento do mundo é a única maneira de amar verdadeiramente ao próximo e aos inimigos, sem se perder e permitir o pecado. É a única maneira de combater os escândalos sem ser escandalizado. Mais importante ainda, é o único caminho para Deus.

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O melhor temperamento é…
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O melhor temperamento é…

O melhor temperamento é…

Como nascemos todos com o pecado original, não existe um temperamento melhor do que o outro. É preciso aproveitar as qualidades da própria “compleição”, trabalhar as suas debilidades e, sobretudo, crescer na graça de Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Setembro de 2019Tempo de leitura: 1 minutos
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Não é porque somos filhos de Adão e desenvolvemos certos maus hábitos ao longo dos anos que precisamos envelhecer no mal e fazer dele um projeto de vida. O temperamento que recebemos “não é uma resignação”. Deus nos deu uma “compleição” específica, mas é no trabalho e na purificação dela que está a nossa santificação.

Além disso, coléricos ou sanguíneos, fleumáticos ou melancólicos, todos somos herdeiros do pecado original. Por isso, no estado em que nos encontramos, não existe um temperamento melhor do que o outro. É preciso aproveitar as próprias qualidades, sanar as próprias debilidades e, sobretudo, procurar crescer na graça de Deus, que nos eleva acima de nossa natureza decaída.

Tudo isso é só para dizer que nós já estamos trabalhando na produção do curso “Os Quatro Temperamentos” e, abaixo, você confere um pouco do que espera por você em outubro, aqui no site do Padre Paulo Ricardo:

Como você pode ver na própria abordagem do vídeo, nosso curso não é um “manual” de cunho psicológico sobre os temperamentos. Para nosso apostolado, o importante mesmo é ver onde esse assunto se encaixa no caminho da santidade

Se por um lado não se deve superestimar a sua importância, como se fôssemos “animais” e estivéssemos confinados aos limites do que a natureza nos impôs, nem por isso os temperamentos devem ser subestimados, como se não passassem de uma “teoria ultrapassada”, sem nada a acrescentar à nossa vida de virtudes e de busca de Deus.

Se você quer saber melhor como esse assunto é tratado dentro do sadio equilíbrio da espiritualidade cristã, inscreva-se agora mesmo em nossa lista exclusiva para este curso e receba todas as atualizações a respeito!

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