No dia 9 de fevereiro, a Igreja fazia comemoração de S. Apolônia, virgem e mártir do século III. Pouco conhecida e com o nome retirado do atual calendário litúrgico, Apolônia é, na verdade, padroeira dos dentistas e das pessoas com dor nos dentes

O porquê de seu patronato é fácil de entender a partir de uma breve leitura de sua morte, tal como no-la conta Eusébio de Cesareia:

Naquele momento, Apolônia, virgem, foi considerada por eles uma pessoa importante. Então, aqueles homens a agarraram e com vários golpes lhe quebraram todos os dentes. Eles então ergueram fora dos portões da cidade uma pilha de madeira e ameaçaram queimá-la viva, caso se recusasse a repetir diante deles palavras ímpias (como uma blasfêmia contra Cristo, ou uma invocação a algum deus pagão). Deram-lhe, por um pedido seu, um minuto de liberdade; ela então se jogou rapidamente no fogo, sendo queimada até a morte [1].

A famosa Legenda Áurea também trazia um relato, este um pouco mais elaborado, de seu martírio:

Como em Alexandria, no tempo de Décio, imperador cruel, tivesse irrompido uma perseguição contra os servos de Deus, um miserável chamado Divino adiantou-se aos demônios, incitando o vulgo supersticioso contra os fâmulos do mesmo Cristo; instigada por ele, a multidão não tinha sede de outra coisa além do sangue dos fiéis. Primeiro, prenderam alguns religiosos de ambos os sexos: golpearam a uns com bastões pelo corpo inteiro e, após lhes perfurarem o rosto e os olhos com estacas agudas, os lançaram fora da cidade; a outros levaram à força até os ídolos, e aos que se recusavam ou, antes, execravam adorá-los meteram cadeias nos pés e, arrastando-os pelas ruas de toda a cidade, com feio e horrível suplício os esquartejaram.

Ora, havia por aqueles tempos uma virgem admirável e já entrada em anos chamada Apolônia, adornada com as flores da castidade, da sobriedade e da pureza, confirmada pelo Espírito do Senhor como coluna fortíssima, oferecendo, pelo mérito e a virtude de sua fé, recebida do Senhor, espetáculos admiráveis aos anjos e aos homens. Como pois a multidão furiosa invadisse as casas dos servos de Deus e, com crueldade hostil, pusesse tudo abaixo, foi prontamente carreada ao tribunal dos ímpios a bem-aventurada Apolônia, inocente pela simplicidade, fortíssima pela virtude, não levando consigo nada além da constância de seu coração intrépido e a pureza de uma consciência íntegra, oferecendo a Deus uma alma devota e entregando o corpo castíssimo à pena dos perseguidores.

Presa a bem-aventurada virgem, os perseguidores, ruindo cruelmente sobre ela, primeiro lhe arrancaram os dentes; depois, reunida a lenha, construíram uma enorme fogueira, ameaçando queimá-la viva, caso não dissesse com eles as mesmas impiedades. Ela porém, ao ver a fogueira acesa, após deliberar um pouco de si para si, soltou-se repentinamente das mãos do ímpios e lançou-se sozinha no fogo com que a ameaçavam, surpreendendo assim os próprios autores da crueldade, por estar uma mulher mais disposta à morte do que o perseguidor à pena.

Vexada por diversos suplícios, nem o tormento das penas que sobre ela caíam nem a chama acesa pelos cruéis perseguidores puderam vencer a fortíssima mártir de Cristo, porque muito mais ardentemente lhe flamejava o coração, aceso pelos raios da verdade. Por isso, tampouco aquele fogo corpóreo e ministrado por mãos mortais foi capaz de apagar-lhe do peito infatigável o calor divinamente infuso.

Oh! grande e admirável certame o desta virgem, que pela graça de Deus misericordioso ardeu, para que não ardesse, e morreu abrasada, para que não fosse queimada, como se não se houvera entregue a chamas e suplícios. Poderia ter-se assegurado a liberdade, mas não teria merecido a glória dos combatentes!

A fortíssima virgem Apolônia, mártir de Cristo, contendo-se das delícias do mundo, calcando com o coração as alegrias mundanas e querendo agradar a Cristo, seu Esposo, com feliz perseverança persistiu firmíssima no voto virginal entre as mais terríveis torturas. Sobressai, pois, e brilha entre os mártires o mérito desta virgem tão gloriosa e felizmente triunfante; decerto, fez o ânimo viril algo maior nesta mulher, pois não cedeu à fraqueza diante de tamanha luta. Sacudindo de si, por amor celeste, todo temor terreno, conquistou o troféu da cruz de Cristo e, armada antes de fé que de ferro, lutou e venceu tanto a concupiscência quanto todos os suplícios [2].

Muitas coisas nos chamam a atenção e poderiam ser comentadas no relato do martírio desta santa. O suplício, por exemplo, de ter os seus dentes todos quebrados na boca, provoca em nós grande agonia, pois imaginamos a dor que ela deve ter sentido ao ser assim fustigada por seus algozes. Por isso Apolônia é retratada na arte segurando uma tenaz ou torquês, algumas vezes com um dente

Uma circunstância em particular de sua morte, no entanto, mereceu a consideração dos teólogos ao longo dos séculos. Afinal, se ela não foi morta, mas antes lançou-se às chamas, seu martírio não se aproxima, de alguma forma, do suicídio?

Quem nos responde é ninguém menos que S. Agostinho:

Conta-se que algumas santas mulheres, em tempo de perseguição, para escapar dos que lhes assediavam a pureza, lançaram-se em um rio caudaloso e mortal e, deste modo, pereceram, e o martírio delas é celebrado com grande veneração na Igreja Católica. Delas não me atrevo a dizer nada temerariamente. Não sei, com efeito, se a autoridade divina persuadiu a Igreja, por alguns testemunhos fidedignos, a honrar assim a memória delas; pode ser que seja o caso. De fato, não poderiam elas ter agido assim, não por engano humano, mas por ordem divina; não por erro, mas por obediência, como não nos é permitido crer de outra forma a respeito de Sansão? Quando Deus manda e demonstra sem sombra de dúvida estar mandado, quem chamará crime à obediência? Quem recriminará o obséquio da piedade? [3]
“Santa Apolônia”, de Carlo Dolci.

As considerações do Doutor da Graça continuam perfeitamente válidas pois, ainda que não seja celebrada mais pelo Calendário Romano Geral, S. Apolônia continua a ser padroeira da cidade italiana da Catânia e nunca deixou de ser invocada por aqueles que sofrem com dor nos dentes. A historicidade de seu martírio é praticamente inconteste e a Igreja não “desautorizou” em momento algum o seu culto [4].

Além disso, com sua morte, esta santa nos ensina o mesmo que todas as virgens mártires — como S. Águeda e S. Doroteia, que celebramos há poucos dias, e como S. Maria Goretti, nossa contemporânea —, a saber: para manter a virtude da pureza, devemos recorrer a meios extraordinários, não excluindo, se preciso for, a entrega da própria vida [5]. A lógica é bem simples: a morte só aniquila nossa vida natural, enquanto o pecado mata a vida sobrenatural da graça em nós. 

Por isso S. Josemaría Escrivá diz em um ponto de Caminho: “Para defender a sua pureza, São Francisco revolveu-se na neve, São Bento jogou-se num silvado, São Bernardo mergulhou num tanque gelado… — Tu, que fizeste?” (n. 143).

Notas

  1. Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, VI, 41: PG 20, 606-614.
  2. Tiago de Varazze. Legenda Aurea (c. LXVI). 2. ed. Leipzig, Impensis Librariae Arnoldianae, 1850, pp. 293-294.
  3. S. Agostinho, A Cidade de Deus, I, 26: PL 41, 39.
  4. Veja-se a esse respeito a observação feita em Calendarium Romanum. Typis Polyglottis Vaticanis, 1969, p. 116: “Deixa-se aos calendários particulares a memória de S. Apolônia, virgem e mártir alexandrina, inserida no Calendário Romano [Geral] no séc. XIII: embora se trate de uma mártir verdadeiramente autêntica da perseguição de Décio (248-259), não consta todavia nenhuma comemoração dela nos calendários orientais.”
  5. Sobre isso, ensina o Pe. Antonio Royo Marín, OP: “Para que a mulher violentada fique inteiramente livre de pecado é necessário — além de rejeitar o consentimento interior — fazer todo o possível (ao menos moralmente falando) para impedir a violação. Por conseguinte, deve gritar pedindo ajuda [...], fugir, se lhe for possível e, inclusive, empregar a força física, golpeando, ferindo e até matando, se for preciso, o seu injusto agressor. Num caso em que toda resistência fosse inútil (v.gr., por encontrar-se em lugar despovoado e não poder fugir nem receber ajuda de ninguém), ela não poderia conduzir-se de maneira puramente passiva, mas teria de revirar-se e dificultar de todas as formas possíveis a violência. No entanto […], não estaria obrigada a deixar-se matar se estivesse moralmente segura de evitar o consentimento interior ao pecado” (Teología moral para seglares, v. 1, Madri: BAC, 1996, p. 539).