Recebemos no suporte do site a seguinte pergunta: “Em Gn 6, 6 está escrito: ‘O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem na terra, e teve o coração ferido de íntima dor’. Como o Senhor se arrependeu sendo onisciente? Ele não sabia que isso aconteceria?”

Resposta: As palavras “penitência” e “arrependimento” significam, em sentido próprio, certa dor e detestação da alma por ter cometido um mal ou omitido um bem, com o propósito de agir diferente no futuro. De fato, quando nos arrependemos de alguma coisa, costumamos dizer para nós mesmos: “Por que fiz isto? Queria não tê-lo feito!”, o que expressa nosso desejo de, em iguais circunstâncias, fazer o contrário do que fizemos.

Ora, que Deus não possa, em sentido próprio, se arrepender de nada, por ser onisciente e sumamente sábio, mostram-no com clareza vários trechos da S. Escritura, dentre os quais destacamos os três seguintes:

  • “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31).
  • “Deus não é homem para mentir, nem alguém para se arrepender. Alguma vez prometeu sem cumprir? Por acaso falou e não executou?” (Nm 23, 19).
  • “Aquele que é a verdade de Israel não mente, nem se arrepende, pois não é um homem para se arrepender” (1Sm 15, 29).

Logo, a passagem de Gn 6, 6 deve ser entendida em sentido impróprio ou metafórico, isto é, como certo antropomorfismo para significar que Deus aborreceu ou detestou os pecados da humanidade e, por isso, decidiu punir os homens, a saber: deixando de conservá-los, o que Ele não levaria a cabo se a maldade humana não tivesse chegado às proporções descritas pouco antes, em Gn 6, 5. Se, com efeito, a mesma Escritura diz que Deus “caminhava no jardim”, mas sem lhe atribuir pés, e afirma que Ele tudo faz com força de seu “braço”, mas sem lhe atribuir membros corpóreos, quando diz que Ele se “arrepende”, por que lhe atribuiríamos as imperfeições e inconstâncias de nossa própria vontade?

Aliás, o verbo que se lê no texto grego de Gn 6, 6 é ἐνεθυμήθη (aoristo de ἐνθυμέομαι), que também se pode traduzir por “reconsiderou em sua mente”, “deliberou”, “ponderou de si para si”, “reflexionou” etc., ideias que, aplicadas a Deus, não significam a retratação formal de uma vontade anterior, mas a simples efetivação, no tempo, do único ato eterno e imutável, embora condicional com respeito às criaturas, da vontade divina: “Castigar com penas justas os entes racionais e livres, se persistem obstinadamente em sua maldade” [1].

Notas

  1. Como lembra o Aquinate (cf. STh I 19, 7c.), querer que as coisas mudem não equivale a mudar de querer. Assim, e.g., Deus pode querer desde toda a eternidade que, num tempo tal, Pedro esteja vivo, mas que, depois, esteja morto, sem que isso implique que a vontade mesma de Deus — tão imutável quanto sua própria substância — tenha-se alterado. Do mesmo modo, Deus pode, com um só ato de vontade, querer absolutamente (i.e., desconsiderando quaisquer circunstâncias) que os homens vivam, mas, condicionalmente (i.e., supostas certas condições), que morram (e.g., no caso de se tornarem indignos, por seus pecados, de dons naturais como a vida biológica).