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“Eu posso falar com papai?”
Sociedade

“Eu posso falar com papai?”

“Eu posso falar com papai?”

Os nossos filhos merecem mais e melhor. Eles não precisam de super-heróis; eles só precisam dos heróis silenciosos, discretos e ordinários de todo dia que atendam ao nome de “papai”.

Doug MainwaringTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Setembro de 2019Tempo de leitura: 11 minutos
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Quando eu comecei a dar meus primeiros passos “fora do armário” [1] em meados dos anos 1990, um cara chamado Tex ofereceu-me um pequeno apanhado sobre sua vida entre um e outro drinque, num bar da cidade. A conversa teve um giro inesperado: ele explicou que o seu atual “parceiro” tinha-se mudado do outro lado do país, deixando para trás esposa e filhos. Tex atendia de vez em quando ao telefone de casa (isto foi antes dos celulares) e ouvia do outro lado uma pequenina voz a perguntar-lhe timidamente: “Eu posso falar com papai?” Era a filha de oito anos do seu “parceiro”, ligando de algum lugar do outro lado dos Estados Unidos. Tex disse ter ficado profundamente chocado ao se dar conta de que a filha de seu “parceiro” tinha de pedir permissão a um estranho para poder falar com o próprio pai.

Quando esta pequena menina me vem à cabeça, meus pensamentos acabam se dirigindo às várias pessoas nascidas de doadores de esperma, muitas das quais se fazem dia após dia a mesma pergunta em seus corações: “Eu posso falar com papai?”

Quando comecei a falar publicamente sobre os perigos do “casamento” homossexual para as crianças, achei difícil encontrar defensores do casamento “neutro” intelectualmente honestos o bastante para um debate ponderado. Foi então que me caiu a ficha: ao menos metade das pessoas que queriam rotular-me disto ou daquilo eram fruto de matrimônios fracassados.

Lá pelos idos de 2013, durante minha participação num painel de debates, um rapaz acusou-me de ser injusto com gays, lésbicas e seus filhos. Aproveitei a oportunidade e perguntei-lhe na lata:

— Os seus pais se divorciaram quando você ainda era criança?

Ele ficou um pouco surpreso com uma pergunta tão pessoal:

— Sim — respondeu, já sem ares de arrogante.

— E você vive com sua mãe? — perguntei.

— Sim — disse ele.

— Você vê o seu pai com frequência?

— Não — disse —, eu quase nunca o vejo.

— Você sente falta dele? Gostaria de estar mais vezes com ele? 

— Claro, com certeza — respondeu, um pouco melancólico.

— O divórcio dos seus pais aumentou a sua felicidade ou a sua infelicidade? — perguntei.

— Minha infelicidade.

— Então, os seus pais acabaram com o seu lar e criaram novas estruturas que punham em primeiro lugar as necessidades deles, não as suas. Além disso, eram estruturas que promoviam a sua contínua infelicidade. Você aprendeu a conviver com isto porque, como uma simples criança, não tinha controle algum sobre as ações de seus pais; no entanto, essas novas estruturas não foram construídas tendo em vista as suas necessidades.

— Não, na verdade. Eu não tinha direito de voto nem nada; eu era apenas uma criança.

— Justamente — concluí. — Logo, que diferença há para os filhos de “casais” homossexuais, aos quais se negam um pai ou uma mãe? Você pensa realmente que ter “duas mães” ou “dois pais” é o mesmo que ter por perto uma mãe e um pai que o amam e cuidam de você? Sério mesmo? Ter uma mãe a mais em casa o deixaria verdadeiramente satisfeito, ou você ainda teria, lá dentro do coração, aquela pergunta por seu pai à procura de resposta? 

— Entendo. 

Então, por que você quer condenar outras crianças a não terem pai? Ou a não terem mãe?

Ele entendeu o meu ponto: não gostou nada, é verdade; mas o entendeu — e voltou para o seu lugar. Não faço ideia se ele mudou opinião; mas ele ao menos teve a chance de ouvir um ponto de vista diferente, e um que fosse razoável. 

Enquanto ia embora, pensava comigo mesmo: “Para ser intelectualmente honesto, não posso falar em público contra os perigos do casamento ‘neutro’ sem falar, ao mesmo tempo, contra o mal objetivo para as crianças que é o divórcio”. O divórcio é um perigo muitíssimo maior e muito mais generalizado para as crianças do que a possibilidade de ser criado sem mãe ou sem pai por um “casal” de gays ou lésbicas. Eu então suspirei: havia ainda muito o que consertar e pôr em ordem.

O pai pródigo

Alguns anos após o nosso divórcio, tornou-se comum que a minha ex-mulher me chamasse à sua casa devido a alguma birra do nosso filho. Ao chegar lá, encontrava um verdadeiro tumulto. Geralmente, ele se irritava por alguma coisa, e aquilo despertava um acesso de raiva totalmente desproporcional ao problema. Ele gritava e chorava e esperneava, então se trancava no quarto, sem deixar ninguém mais entrar. Era horrível assistir à cena. Felizmente, ele acabava se acalmando depois de um tempo e voltava ao normal.

A raiva do meu filho, por sua vez, gerava novas discussões com a minha ex-mulher. O que devíamos fazer a respeito do comportamento dele? Seria preciso medicá-lo? Ou o melhor seria dar-lhe uma surra? Ou quem sabe procurar um psicólogo?

Depois de o episódio se repetir algumas vezes, pareceu-me claro como água de que o meu filho estava precisando. Ele não tinha apenas um problema comportamental; ele precisava, isso sim, de uma única coisa: de que os seus pais estivessem juntos de novo e se amassem um ao outro. O “fatiamento” da nossa família havia gerado uma carga insuportável de estresse para aquela frágil alma de apenas quatro anos. E os seus pais eram os grandes responsáveis por isso, ainda que, para nós, o problema parecesse ser todo dele.

O nosso menino não tinha culpa alguma; era eu, com certeza, que a tinha.

Foram precisos alguns anos mais para que a minha ex-mulher e eu tomássemos jeito. Nesse meio tempo, os nossos filhos vieram morar comigo. Não era bem uma solução; era somente um paliativo para resolver aos poucos uma situação desconfortável. Embora isso tenha resolvido alguns problemas, também é verdade que gerou outros e permaneceu, no fim das contas, uma resposta insatisfatória.

Para justificar o divórcio e a existência de “duas famílias”, os adultos estávamos impondo uma charada, exigindo que todos à nossa volta (sobretudo os nossos filhos) fingissem que os nossos objetivos egoístas e a nossa incapacidade de “ajeitar as coisas” não eram nada de mais. No fundo, não tínhamos feito senão descarregar nossos problemas e disfunções sobre os nossos filhos. Estávamos aliviando o nosso próprio estresse pondo-o sobre os ombros das nossas crianças.

Felizmente, uma dúzia de anos mais tarde, nós finalmente deixamos de pretextos e voltamos a ser marido e mulher, casados e pais de seus filhos. Muitas feridas se têm cicatrizado desde então, algumas das quais foram uma surpresa até mesmo para nós. E jamais saberemos de que outros problemas em potencial os nossos filhos foram preservados.

Uma lição de Hollywood

Nunca antes na história as crianças tinham sido geradas com a intenção explícita de serem privadas ou de uma mãe ou de um pai. E no entanto as crianças que vêm a este mundo para satisfazer os desejos de “casais” de gays ou lésbicas nascem exatamente com essa finalidade. Elas vivem conscientes de que um de seus pais biológicos será para sempre um enigma, um fantasma.

Até pouco tempo atrás, viam-se as crianças como um puro dom de Deus; agora, porém, as novas leis que “redefinem” o matrimônio estão produzindo o triste resultado de crianças igualmente “indefinidas”, reduzidas a objetos do capricho de adultos. Por outro lado, as famílias destas crianças consistem, não já em seus antepassados, mas em um pequeno grupo de barrigas de aluguel, doadores e advogados que fazem as vezes do sexo ausente em “casamentos sem gênero”.

Dennis Quaid e Linsay Lohan em “Operação Cupido”.

Talvez soe estranho, mas um filme da Disney de 1998, Operação Cupido (refilmagem do clássico de 1961 estrelado por Hayley Mills), pode nos ensinar muito sobre o que acontece com crianças criadas por “dois pais” gays ou “duas mães” lésbicas.

No filme, duas meninas praticamente idênticas, Hallie Parke e Annie James, se cruzam por acaso num acampamento de verão. Elas logo descobrem ser irmãs gêmeas separadas na maternidade, e elaboram um plano para trocar de papéis e assumir uma o lugar da outra. Elas têm tanta vontade de conhecer seus pais que estão dispostas a mudar de aparência, o corte de cabelo, seu maneirismo, tom de voz e sotaque, e até mesmo a ir para outro país, simplesmente para passar alguns dias “clandestinos” com a mãe ou o pai que nunca conheceram.

Hallie vive com o pai na Califórnia, em uma linda mansão de encosta, com piscina e cavalariça. Ela tem um belo pai, que é também um excelente vitivinicultor. Hallie, em resumo, tem tudo; mas ela ainda anseia pela mãe que lhe foi negada. Enquanto isso, Annie vive em uma mansão num chique subúrbio londrino. A sua bela mãe é uma conhecida designer de moda. Elas têm vários mordomos e um chofer exclusivo para o seu carro de luxo; mas, ainda assim, Annie anseia pelo pai que lhe foi negado.

Ambas as meninas vivem um invejável conto de fadas. Mas, para quem assiste ao filme (e a maioria dos espectadores desfruta de muito menos bem-estar e segurança do que elas), o sentimento pelas duas é de tristeza, porque a cada uma falta ou o pai ou a mãe. Esta ironia é o argumento do filme.

É interessante também que a tia de Hallie vive na casa da sobrinha, servindo-lhe como uma espécie de “mãe substituta”, ao passo que o avô materno de Annie vive com a filha e a neta, fazendo as vezes da figura paterna para a menina. Muito embora esses maravilhosos e otimistas pais solteiros tenham por perto algum parente carinhoso do outro sexo, existe uma profunda lacuna nos corações de Annie e Hallie

No filme, os adultos são responsáveis por dividir as crianças. No caso dos filhos de casais “sem gênero”, os adultos são responsáveis por torná-las carentes, com uma carência que estará para sempre dentro dos seus corações. Crianças “fabricadas sob medida” para casais gays têm de enfrentar uma vida empobrecida desde o momento em que nascem, na medida em que dois homens as arrancam da sua “barriga de aluguel”, negando-lhes a única oportunidade que terão na vida de sentir o que é um abraço de mãe. Essa oportunidade perdida é a experiência mais próxima que terão estas crianças de tocar alguém que, de certa maneira, poderiam chamar de mãe.

À medida que forem crescendo, o desejo delas pela mamãe será ignorado, silenciado, desprezado. Porque, no fim das contas, o papai pensa não ter necessidade alguma de uma mulher em casa. E, se isso é assim, por que a teriam o seu filho ou a sua filha? O clamor de um filho pela mamãe, dessa forma, acaba se tornando um insulto para um pai que não quer se casar ou para um “casal” gay. Para a criança, o melhor parecerá sofrer em silêncio, a fim de não chatear o pai ou “os pais” com esses assunto “tabu”.

Todos nós temos de refletir com muito cuidado sobre as consequências, nem sempre intencionais ou deliberadas, que implica (ou que são propositalmente escondidas) a aceitação dos “matrimônios” homossexuais e o desinteresse persistente da nossa sociedade pelo divórcio e as famílias monoparentais. Nós, adultos, damos um grande bocejo quando estes temas entram em pauta. Mas as crianças, essas, sim, têm uma reação diferente: elas choram de noite até pegarem no sono.

Quando o que está em jogo é a paternidade, precisamos ser homens

Os homens divorciados, ou os homens que se “uniram” a outros homens para criar os próprios filhos, ou os que são doadores anônimos de esperma, todos estes seguem as pegadas de Esaú, com a diferença de que não é nosso o direito de primogenitura que estamos vendendo por um prato de lentilhas: é às nossas crianças que ele pertence. E nós, insensíveis, vendemos a preço de nada este que é o maior tesouro delas, o poder ser criado por seus pais biológicos, em uma família natural intacta.

Este mundo não precisa que os homens tomem mesquinhamente o que querem, sobretudo se o preço disso é o bem-estar dos nossos filhos. Espera-se que os homens façam justamente o contrário: os homens têm o dever de proteger os filhos da infelicidade, da solidão e de outros perigos. Homens de verdade não fazem de seus filhos as vítimas de seus próprios interesses. Homens de verdade protegem, cuidam, suportando o estresse e as dificuldades, em vez de as transferirem para os próprios filhos. Homens de verdade enfrentam os problemas cara a cara.

Quando o que está em jogo é a paternidade, a nossa cultura precisa que os homens sejam homens. Para alguns, isso pode exigir o abandono de alguns sonhos e dos nossos próprios desejos. No entanto, a nossa cultura está cada vez mais dominada por homens autocentrados e covardes. C. S. Lewis diria que a nossa é uma cultura de homens despeitados.

O Papa S. João Paulo II disse certa feita: “O pecado original, assim, intenta abolir a paternidade, destruindo-lhe os raios que permeiam o mundo criado, pondo em dúvida a verdade sobre Deus, que é amor”. Nestes tempos, o casamento, a família e inclusive o sexo biológico são subvertidos de todos os modos possíveis, e a paternidade, de modo particular, é objeto de ataques incansáveis e violentos. Cabe aos homens lutarmos corajosamente contra eles.

Os nossos filhos merecem mais e melhor. Eles não precisam de super-heróis; eles só precisam dos heróis silenciosos, discretos e ordinários de todo dia que atendam ao nome de “papai”— não pronunciado do outro lado do telefone, mas sussurrado ao nosso ouvido por quem estreitamos carinhosamente ao peito.

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Temperamento não é muleta!
Cursos

Temperamento não é muleta!

Temperamento não é muleta!

Não é porque você nasceu com esta ou aquela tendência que precisa ceder à sua natureza e levar a vida de qualquer modo. Temperamento não é muleta, nem licença para ser um mau caráter!

Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Setembro de 2019Tempo de leitura: 1 minutos
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Nós, seres humanos, estamos sempre arrumando uma desculpa, um “jeitinho” para justificar nossos defeitos e permanecer na cômoda mesmice de nossos maus hábitos…

Pois bem, se há algo em que nosso novo curso sobre “Os Quatro Temperamentos” quer ajudar você, é justamente a mudar isso. Assim como o Apóstolo disse: “Não vos conformeis com este mundo” (Rm 12, 2), este curso é para dizer a você: Não se conforme com seu temperamento! Não se conforme às más inclinações com que você nasceu! Lute — com a graça de Deus, é claro, mas lute — para transformar a própria têmpera!

Dizendo de modo mais claro e concreto: 

  • não é porque você nasceu mais propenso à cólera que pode ser mal educado e sair por aí dando coice nos outros; 
  • não é porque nasceu mais dado à melancolia que precisa ficar “chorando as pitangas” todo dia; 
  • não é porque nasceu mais inclinado à preguiça que não precisa “pegar no batente”; 
  • não é porque tende à inconstância que está fadado a sempre começar as coisas e nunca terminá-las… 

Porque temperamento não é muleta, nem licença para ser um mau caráter, e é essa a mensagem do novo teaser que estamos enviando a você, com mais trechos inéditos de nossas aulas. Assista:

Se você gostou e quer saber melhor como esse assunto é tratado dentro do sadio equilíbrio da espiritualidade cristã, inscreva-se agora mesmo em nossa lista exclusiva para este curso e receba todas as atualizações a respeito! “Porque é a partir desse conhecimento, do que é a minha tendência biológica, que eu vou construir o meu caráter”.

E anote em sua agenda: nosso lançamento será no dia 15 de outubro, memória de Santa Teresa de Jesus.

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Marido e mulher, vocês não pertencem a si mesmos!
Família

Marido e mulher,
vocês não pertencem a si mesmos!

Marido e mulher, vocês não pertencem a si mesmos!

Embora o sacramento do Matrimônio não imprima caráter em sentido estrito, o casal muda verdadeiramente: o alicerce deixa de ser o próprio eu e passar a ser o outro, deixa de ser o isolamento para ser a comunhão.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Setembro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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A linguagem tradicional de “direitos” ou “débitos” no Matrimônio foi muito criticada  antes e durante a realização do Concílio Vaticano II, e quase desapareceu do vocabulário católico. No entanto, é necessário analisá-la novamente. Porque é importante reconhecer, especialmente numa época de confusão a respeito da indissolubilidade matrimonial, que no momento em que nasce o vínculo conjugal algo de cada um dos cônjuges pertence, por direito, ao outro, e não apenas a si mesmo.

Vejamos os votos contraídos no Matrimônio: “Eu, N., recebo-te por minha esposa (meu esposo) a ti, N., e prometo ser-te fiel...”. A troca de consentimentos não é um contrato limitado e revogável: ao contrário, ele é livre, irrevogável e desinteressado, pois um se entrega ao cuidado do outro. Eu deixo de ser “dono do meu nariz”, pois agora pertenço à outra pessoa. Em certo sentido, torno-me propriedade do meu cônjuge. Os esposos podem reivindicar coisas um do outro, porque cada um deles tem um direito verdadeiro e definitivo sobre o outro. Esse é precisamente o significado do voto, diferentemente de acordos, contratos, pactos, parcerias ou “casos”.

Vale a pena fazer uma comparação com os votos religiosos. A mulher que entra para a vida religiosa, como costumamos dizer, faz um voto irrevogável e incondicional de se casar espiritualmente com Nosso Senhor Jesus Cristo. Por sua vez, o homem que entra para a vida religiosa promete pôr-se plenamente à disposição e a serviço dEle. Não se trata de um mero passatempo, mas da consagração de toda a vida a outra pessoa.

Por isso, tanto o Matrimônio como a vida religiosa exigem uma preparação séria, um propósito lúcido, esforço e oração constantes para que haja perseverança e um desejo pleno de aceitar o fardo do outro “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, nas épocas de esplendor e nas noites escuras. 

Você não pertence a si mesmo” — é esse o clamor que sai da boca do Apóstolo (1Cor 6, 19). Marido e mulher, vocês não pertencem a si mesmos, pertencem um ao outro e, portanto, devem tudo um ao outro. Esse débito se estende de forma natural, espontânea e apropriada aos filhos, por quem os pais são responsáveis e de quem recebem as bênçãos da alegria, do apoio e do sofrimento, ou seja, trata-se de uma verdadeira participação no mistério pascal de Cristo. De modos distintos, os membros da família pertencem uns aos outros. Nenhum deles pertence a si mesmo. 

Você não pertence a si mesmo. Contraímos uma dívida eterna com Deus pelo simples fato de termos sido criados do nada por sua vontade benéfica e sábia. Devemos a Ele nosso próprio ser, porque Ele nos fez para ser, Ele nos dá o “ato de ser”, a fonte de nossa personalidade, a energia dinâmica que nos transforma em seres reais, e não meramente possíveis. Como se isso não bastasse, Ele nos salva: “Fostes comprados por um alto preço” (1Cor 6, 20).   

O Matrimônio é análogo à Criação e Redenção. Deus remodela os esposos como marido e mulher através dos votos feitos livremente por eles e, num mistério que envolve o uno e o múltiplo, o passado e a eternidade, o exercício da vontade individual de cada um dá origem à união amorosa de duas vidas. Por meio dos votos o relacionamento (ou seja, sua mútua dependência) vai da possibilidade à realidade: ele se torna algo real, e não apenas uma ideia ou desejo. 

Embora o sacramento do Matrimônio não imprima caráter em sentido estrito, o casal muda verdadeiramente: o alicerce deixa de ser o próprio eu e passar a ser o outro, deixa de ser o isolamento para ser a comunhão. Os cônjuges estabelecem uma nova relação, enraizada na razão e na vontade, e por meio da qual são novamente criados no Reino de Deus e neste mundo. Essa relação é tão íntima que somente a morte (literalmente, o desaparecimento de um dos esposos) lhe pode estabelecer um limite temporal. Na medida, porém, em que a alma santificada de uma pessoa leva consigo tudo o que ela fez em sua vocação para a glória de Deus, o vínculo entre os esposos pode continuar no céu, não da forma como existe na terra (cf. Mc 12, 25), mas num estado transfigurado de perfeita e elevada união, que foi imperfeitamente alcançado nesta vida. 

O que foi dito acima ajuda a explicar por que a união física entre homem e mulher só faz sentido no contexto matrimonial. Ela é tradicionalmente chamada “ato conjugal” (ou nupcial) por ser o ato por que se paga, de modo simbólico e real, a dívida espiritual dos votos. É imagem passageira de um compromisso duradouro, evidência momentânea da intenção de amar e servir por toda a vida. 

Esse ato perde o sentido quando não há comunhão de almas alicerçada num voto. Fora do casamento, o ato se autodestrói, pois ignora sua elevada finalidade e se torna ou um ritual niilista, do qual se cansam até as pessoas mais inteligentes e artísticas, ou um ato animal sem qualquer valor pessoal. Isso acontece porque a união física digna de duas pessoas humanas só pode ocorrer se for realizada primeiro no campo espiritual por meio de votos solenes, pelos quais homem e mulher se concedem mutuamente o direito exclusivo que um pode exercer sobre o outro. É assim que se entregam um ao outro. Qualquer outra coisa além disso é autocontraditória, medíocre mesmo, algo a que Nietzsche chamou “meio a meio”.

Nietzsche também dizia que o coração do homem e da mulher tem um profundo desejo de eternidade. Nossos corações desejam o Todo, e não descansarão até obtê-lo. O Matrimônio é um todo espiritual, um bem comum feito de partes intrínsecas: marido e mulher. Se o todo for removido, as partes se dissolvem, assim como a mão perde sua essência quando separada do corpo, pois em tal circunstância ela só pode ser chamada “mão” de modo equívoco. Se o todo for danificado ou eliminado, as partes perecerão, assim como o homem morre quando cortado ao meio ou o corpo se corrompe quando dele se separa a alma. 

O voto nupcial representa a união de dois espíritos, cuja graça, paz, alegria e caridade podem ser reforçadas pela união física. A beleza do ato interno (duas pessoas unidas por um voto) redunda na beleza do externo (duas pessoas numa só carne); a veracidade do ato interno contém e aprofunda a veracidade do externo; a bondade do ato interno purifica e ilumina o externo. Essa é outra forma verdadeira de dizer: “O que Deus uniu o homem não separe”.

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É possível o retorno à inocência?
Sociedade

É possível o retorno à inocência?

É possível o retorno à inocência?

Com a contínua banalização do vício na modernidade, a ideia de preservar ou recuperar a inocência pode parecer um tanto irrelevante. Mas seria impossível fazê-lo? Ou, ao contrário, não é esse o único caminho para Deus?

Auguste MeyratTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)20 de Setembro de 2019Tempo de leitura: 9 minutos
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Com a contínua banalização do vício na modernidade, a ideia de preservar ou recuperar a inocência parece um tanto irrelevante. Hoje, apenas alguns pais (geralmente mórmons ou católicos tradicionais) levam a sério a inocência de sua família e fazem o possível para proteger os filhos da corrupção reinante em todas as formas de mídia e ambientes. Eles educam em casa, restringem ou proíbem o tempo de televisão e  procuram limitar as companhias e amizades de seus filhos.

Na maioria dos casos, seus vizinhos mais progressistas os ridicularizam como loucos e fariseus modernos, principalmente quando veem seus filhos alimentando a fé e vivendo prudentemente, enquanto os seus próprios caem em todos os pântanos morais imagináveis.

Diante de tal êxito, pode-se perguntar por que mais pessoas não seguem essas famílias saudáveis em vez de zombar delas. Algumas o fazem, e isso explica por que as comunidades religiosas ortodoxas mais tradicionais estão crescendo rapidamente, enquanto as liberais continuam a decair de forma vertiginosa. Outros não o fazem porque não compreenderam o que realmente significa inocência. Com demasiada frequência, ela é entendida em termo negativos: não ser exposto a más influências, não observar ou conhecer o mal, não ter maus pensamentos ou cometer ações más etc. Se as pessoas veem a inocência como um conjunto de “não-experiências”, os que a ela se opõem podem tratá-la como algo que denota ignorância, ingenuidade e até insensibilidade.

A consequência dessa redefinição é clara, especialmente nas escolas, no entretenimento e na vida familiar. Na escola, as crianças são sistematicamente escandalizadas em relação à sua fé, aos seus relacionamentos e à sua própria identidade. Elas aprendem cedo a equiparar religião com superstição, amor com utilidade e o “eu” com características acidentais. Os alunos que praticam sua fé, evitam o sexo e renunciam ao status de “vítima” são considerados estranhos e atraem o desprezo universal. Por outro lado, os estudantes “de gênero fluido”, com muitos parceiros e sem religião, são cada vez mais celebrados e admirados.

No entretenimento, as crianças veem o bem e o mal relativizados, com o vilão muitas vezes interpretando o herói, e virtudes como a bravura e a honestidade sendo dissolvidas em desprezo, incompetência e superficialidade. Pode até ser que os telespectadores mais jovens aprendam a ser gentis com as pessoas, mas o que eles costumam aprender com mais frequência é a tirar sarro dos outros, esquecer suas boas maneiras e agir como palhaços.

Além de absorver a imoralidade desse entretenimento, o ato de consumir passivamente imagens e sons, na tela, atrai as crianças para o vício. Não há melhor maneira de tirar a inocência de uma geração inteira do que transformá-los em viciados.

É claro que a escola e o entretenimento não teriam tanto efeito sobre a inocência dos jovens se os adultos estivessem em guarda. Mas, infelizmente, a maioria dos adultos abandonou o posto, deixando suas casas um caos e as crianças se virando por si mesmas. Incentivados por uma propaganda onipresente, eles têm cada vez menos escrúpulos em submeter seus filhos à corrupção. Assim, as crianças passam os primeiros anos de formação em lares onde abuso, palavrões e mentiras são algo comum.

Essa extinção da inocência continua, perigosa, até a idade adulta. Colocados em uma ladeira escorregadia e achando que nada mais têm a perder, a maioria dos adultos continua perdendo ainda mais a inocência. Seu lazer, educação e vida doméstica se tornam ainda mais escandalosos e destrutivos, a ponto de males extremos como o aborto, a eutanásia e a perseguição religiosa começarem a ser tratados como opções desejáveis para revolucionar a cultura.

Essa situação deixa duas opções para o indivíduo que ainda acredita na inocência: lutar ou fugir. A curto prazo, aqueles que escolherem a última opção podem ser mais eficazes em lidar com esse movimento espiral de decadência moral, mas isso não acontecerá a longo prazo. A tão criticada “Opção Beneditina” poderia funcionar em uma sociedade feudal descentralizada, que é o que a Europa se tornou após a queda do Império Romano. Mas não pode funcionar em países modernos, onde um governo autoritário tem os meios e o apoio para simplesmente proibir ideias e práticas contrárias à sua ideologia. Por exemplo: as leis do Canadá que anulam a autoridade dos pais para pressionar a doutrinação LGBT, ou as leis draconianas da Alemanha contra o ensino em casa, indicam qual será o destino final das famílias que tentarem se afastar da corrupta cultura secular da nossa época.

Em vez disso, a melhor opção para preservar a inocência é combater a corrupção predominante. O primeiro passo requer recuperar a definição adequada de inocência. Muito mais do que uma mera falta de experiências negativas, a inocência é uma confiança em realidades superiores — como a Verdade, a Bondade e a Beleza. É inocente a pessoa que acredita na verdade da revelação de Deus, na bondade dos amigos e familiares, na beleza da Criação e da imaginação. Essa pessoa tem uma visão transcendente do mundo e é capaz de enxergar para além de si mesma. Ela não reduz toda a experiência a fenômenos materiais aleatórios, mas encontra significado em tudo e em todos. 

Por terem menos experiências que as levariam a duvidar das realidades mais elevadas, as crianças são naturalmente mais inocentes. No Sermão da Montanha, Cristo, a própria encarnação da inocência, claramente quer preservar essa qualidade nos jovens e recuperá-la nos velhos: “Em verdade vos digo: se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3). Jesus não ordena que os adultos abandonem suas responsabilidades ou seus conhecimentos, como ele deixa claro três versículos depois (cf. Mt 18, 6), mas exorta a manterem sua inocência e confiança em Deus.

Felizmente, apenas conhecer ou experimentar algo feio, mau ou falso não leva necessariamente as pessoas a perderem a inocência, embora isso certo aconteça se não tivermos cuidado. Dostoiévski ilustra essa situação com os protagonistas de Crime e Castigo. Na esperança de provar a teoria de que indivíduos verdadeiramente iluminados podem dispensar a moralidade, o protagonista Raskólnikov comete um duplo homicídio, perdendo a inocência no sentido não apenas jurídico, mas também espiritual. A miséria por ele experimentada não provém da culpa por tirar a vida de um inocente, mas da decisão de desistir da Verdade, da Bondade e da Beleza pela falsa sensação de poder resultante do pecado.

Em contraste direto, a personagem Sônia preservou a inocência. Ela brilha como um anjo, apesar de experimentar males muito piores como prostituta, apoiando o pai alcoólatra, com uma mãe histérica e irmãos pequenos e indefesos. Nas conversas entre os dois, Sônia é inocente, afirmando sua confiança em Deus e em seu amor, enquanto Raskólnikov se sente qualificado para lhe dizer o quão errada e ingênua ela é, ainda que ele mesmo nunca se dê conta da própria estupidez, ao cometer um crime pela simples razão de justificar uma hipotética moral adolescente.

Em vez de evitar Raskólnikov para manter sua pureza, Sônia pacientemente o confronta sobre seu crime e o desafia ao arrependimento. Nesse sentido, ela reflete os santos que brandiram sua inocência diante da corrupção. Eles entenderam que isso era mais persuasivo do que qualquer argumento. São Paulo conquistou mais convertidos na Grécia com sua inocência do que os maiores filósofos fizeram com seus diálogos e tratados. O próprio Santo Agostinho se converteu não por sua educação retórico-filosófica, mas por causa dos exemplos morais de sua mãe Santa Mônica e de seu mentor, Santo Ambrósio. São Bernardo de Claraval superou o lógico e célebre Pedro Abelardo (numa época em que havia pessoas assim) mais pelo poder de suas convicções do que por seu brilhantismo. São João Paulo II, um gênio por mérito próprio, dedicou sua vida a Deus depois de testemunhar a fé inabalável do pai, a quem considerou como seu “primeiro seminário”. Nada disso exclui a necessidade da razão; indica, porém, que esta é muito mais convincente quando associada à inocência.

Além de provar o poder da inocência, esses exemplos do passado demonstram que ela constitui o remédio concreto para um presente já fadigado. Obviamente, os que preservaram sua inocência devem torná-la um modelo para os outros. Eles podem esperar retaliações, mas pelo menos as pessoas notarão e talvez até venham a tomar consciência mais profunda dos efeitos encantadores da inocência.

O que é menos óbvio nesses exemplos, mas ainda assim imprescindível, é a necessidade subsequente do afastamento do mundo. A inocência impulsiona os homens para o céu; a corrupção os afasta. A pessoa deixa de confiar na Verdade, na Bondade e na Beleza quando passa tempo ouvindo mentiras, sucumbindo ao vício e se rendendo à autossuficiência. Portanto, o homem deve se afastar dessas influências.

Tal mudança acontece para Raskólnikov quando ele passa anos em uma prisão siberiana, antes de finalmente se arrepender. São Paulo escolheu viver no anonimato por três anos após sua conversão, antes de iniciar seu apostolado em Antioquia. Após sua conversão, Santo Agostinho se afastou permanentemente do mundo e de todos os seus prazeres e, praticamente, formou sua própria Ordem religiosa. São Bernardo ingressou na comunidade monástica mais rígida da França de sua época, e São João Paulo II perdeu o sono para passar mais horas em oração. Para todos esses homens, foi o afastamento do mundo que permitiu à inocência criar raízes e florescer. Eles pareciam haver entendido que, sem essa separação, a inocência continuaria sendo um ideal distante que induziria mais a remorsos do que à mudança de vida.

Na era da informação, esse afastamento se tornou cada vez mais difícil, à medida que novos dispositivos preenchem todos os espaços da vida; e inventores e psicólogos desonestos incorporam “tecnologia persuasiva” para destruir a possibilidade de autocontrole das pessoas. Por esse motivo, é necessário ter um propósito de mudar os próprios hábitos e reordenar as prioridades da vida. O tempo gasto anteriormente na televisão e nas mídias sociais pode ser preenchido com oração, trabalho, estudo e momentos de convivência. Se tal mudança puder ser sustentada sem recaídas, surgirão momentos de inocência em que a pessoa perceberá, e se revoltará, com o profano; e exaltará o belo, cheia de gratidão pelas muitas bênçãos presentes no mundo ao seu redor.

Para muitas pessoas que perderam sua inocência, a percepção de que ela pode ser resgatada é uma ocasião de grande alívio, e até de emancipação. Elas não precisam mais se desesperar por terem se afastado da inocência, nem continuar fingindo que estavam melhor por tê-la perdido. Em vez disso, elas podem ser encorajadas pela possibilidade de se tornarem inocentes novamente, protegendo a inocência de outrem e confrontando as forças que trazem à nossa sociedade essa tão sufocante corrupção. Por fim, um retorno à inocência através do afastamento do mundo é a única maneira de amar verdadeiramente ao próximo e aos inimigos, sem se perder e permitir o pecado. É a única maneira de combater os escândalos sem ser escandalizado. Mais importante ainda, é o único caminho para Deus.

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O melhor temperamento é…
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O melhor temperamento é…

O melhor temperamento é…

Como nascemos todos com o pecado original, não existe um temperamento melhor do que o outro. É preciso aproveitar as qualidades da própria “compleição”, trabalhar as suas debilidades e, sobretudo, crescer na graça de Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Setembro de 2019Tempo de leitura: 1 minutos
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Não é porque somos filhos de Adão e desenvolvemos certos maus hábitos ao longo dos anos que precisamos envelhecer no mal e fazer dele um projeto de vida. O temperamento que recebemos “não é uma resignação”. Deus nos deu uma “compleição” específica, mas é no trabalho e na purificação dela que está a nossa santificação.

Além disso, coléricos ou sanguíneos, fleumáticos ou melancólicos, todos somos herdeiros do pecado original. Por isso, no estado em que nos encontramos, não existe um temperamento melhor do que o outro. É preciso aproveitar as próprias qualidades, sanar as próprias debilidades e, sobretudo, procurar crescer na graça de Deus, que nos eleva acima de nossa natureza decaída.

Tudo isso é só para dizer que nós já estamos trabalhando na produção do curso “Os Quatro Temperamentos” e, abaixo, você confere um pouco do que espera por você em outubro, aqui no site do Padre Paulo Ricardo:

Como você pode ver na própria abordagem do vídeo, nosso curso não é um “manual” de cunho psicológico sobre os temperamentos. Para nosso apostolado, o importante mesmo é ver onde esse assunto se encaixa no caminho da santidade

Se por um lado não se deve superestimar a sua importância, como se fôssemos “animais” e estivéssemos confinados aos limites do que a natureza nos impôs, nem por isso os temperamentos devem ser subestimados, como se não passassem de uma “teoria ultrapassada”, sem nada a acrescentar à nossa vida de virtudes e de busca de Deus.

Se você quer saber melhor como esse assunto é tratado dentro do sadio equilíbrio da espiritualidade cristã, inscreva-se agora mesmo em nossa lista exclusiva para este curso e receba todas as atualizações a respeito!

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